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Mercados emergentes entre a cruz e a espada

São Paulo, 25 de fevereiro de 2019 – Está semana será relevante em termos de divulgações de indicadores, as notas do Banco Central do setor externo, de crédito e política monetária e de política fiscal nos dias 25, 26 e 28, respectivamente. O IBGE apresentará o PIB de 2018 na quinta-feira (28). Indicadores no exterior também serão destaque, com foco no PIB norte-americano e seu deflator de consumo, que serão divulgados nos dias 28 e 1º, respectivamente.

Será para estes dados no exterior, em especial nos EUA, que as atenções dos mercados deverão se voltar. Não é de hoje que a economia norte-americana vem dando sinais de desaceleração. Na verdade, isso ocorre desde meados do segundo semestre do ano passado. Indicadores industriais, do mercado imobiliário, de ciclo de negócios e principalmente de vendas varejistas apresentam evolução aquém das expectativas desde então. Entre as motivações desse movimento estão o aperto das condições financeiras, o imbróglio comercial com a China, a realização dos preços de renda variável e a paralisação das atividades do Governo. Não por acaso, portanto, o Banco Central norte-americano recuou em sua estratégia de aperto da política monetária.

Quais os impactos desse cenário para economias emergentes? À primeira vista, esse recuo pode representar um alívio para economias emergentes. De fato, o menor ritmo de aumento ou mesmo a estabilidade da taxa básica de juros nos EUA favoreceria movimentos de fluxos de capitais e de investimentos em prol de economias emergentes. Neste caso, poderíamos conter a trajetória de fortaleza da moeda norte-americana. De certa forma, foi exatamente isso que ocorreu desde janeiro, conforme figura abaixo.

Vale observar, entretanto, que esse movimento não é isento de riscos. Pelo contrário. Há pelo menos três tipos de risco que devem ser monitorados. Primeiro, o aprofundamento da desaceleração da economia norte-americana. Cabe monitorar a evolução do mercado de trabalho nos EUA, último bastião das análises otimistas. Segundo, a evolução dos conflitos comerciais sino-americanos, já que não é possível dizer que o pior já passou. Por fim, há a desaceleração da economia chinesa, sob a qual pesam mais dúvidas do que certezas. Se um desses riscos se precipitar, o mencionado alívio será revertido pela aversão a risco, em detrimento de economias emergentes. A MAPFRE Investimentos está atenta aos riscos e às oportunidades desse cenário binário.         

Empresas e Setores: Mineração e Construção

  • Mineração: O desastre em Brumadinho e a suspensão da operação de oito barragens da Vale por determinação da Justiça fizeram com que a oferta de minério de ferro fosse reduzida em nível global. Como a demanda se manteve estável, os preços subiram - os preços do minério de ferro estão 15% mais altos após o desastre. O valor de referência é o negociado na bolsa de Dalian, com teor 62%. Entretanto, a commodity que a Vale produz tem um teor superior, difícil de ser reproduzido. Como o minério de ferro de maior teor tem correlação com aqueles negociados em Bolsa, é possível que os preços do produto premium da companhia também tenham subido em igual ou maior magnitude.
  • Construção Civil: Os dados divulgados pelo Secovi na última semana demostraram alta de 27% nas vendas de imóveis em São Paulo, incluindo unidades novas e as já concluídas, que ainda estavam no estoque das construtoras. O setor foi um dos que mais sofreu na recente crise. Isso porque depois de terem comprado imóveis na planta, diversos clientes passaram a desistir da decisão, o chamado “distrato”. Se antes da crise o índice de distratos ficava em torno 10% das vendas, estes passaram para o patamar de 40% durante a crise. O modelo de negócios consiste em comprar, construir e vender. Como as vendas rarearam, os estoques nos balanços aumentam. Assim, as empresas passaram a ficar com as unidades devolvidas e tiveram de conviver com a administração de estoques. Unidades paradas exigem gastos com manutenção, encargos de condomínio e pagamento de IPTU. O crescimento das vendas traz um duplo alívio para as construtoras: a possível retomada do setor, viabilizando novos lançamentos, e o interesse dos clientes nas unidades já construídas.

Gestão: No fim do túnel há uma reforma, mas no caminho muita volatilidade
Arrefecido um pouco do otimismo com a troca de governo no começo do ano, o mercado já começa a se dar conta de que a aprovação da reforma da Previdência não será simples. Porém algumas ‘análises’ que ouvimos por aí pecam ao restringir as economias fiscais aos R$ 1,1 trilhão da PEC apresentada ao Congresso no último dia 18: a ela estão vinculados dois Projetos de Lei de aproximadamente R$ 200 milhões (incluindo aí a reforma dos militares), R$ 3 milhões em repasses previstos do BNDES ao Tesouro e de R$ 200 milhões a R$ 400 milhões advindos da MP 871 (combate a fraudes), totalizando R$ 2 trilhões.

Isto nos lembra a lenda da queda do filósofo, astrônomo e matemático Tales de Mileto em um poço enquanto observava os céus, na ocasião comentada por uma testemunha ocular da história: “eis aqui um homem que estuda as estrelas e não pode ver o que está a seus pés”. A MAPFRE Investimentos antecipa um período tortuoso e volátil para o mercado durante a ‘travessia’ da reforma da Previdência pelo Congresso, em que toda e qualquer notícia sobre sua tramitação será amplificada no movimento intradiário dos preços.

Como boa notícia da semana passada, destaque para os avanços reportados nas negociações comerciais entre os EUA e a China, o que ajudou a fortalecer o dólar e melhorou o humor dos investidores no cenário externo, contribuindo para o desempenho das bolsas na Ásia e nos Estados Unidos. No Brasil, o Ibovespa oscilou muito em ambas as direções nas sessões durante a semana para encerrar praticamente estável, com o dólar avançando cerca de 1% e os DIs também em ligeira alta.

Nesta próxima semana, destaque no Brasil e nos EUA para os dados do PIB do 4T18, bem como a continuidade da temporada de resultados corporativos. Também no radar a repercussão do encontro do presidente Donald Trump com o presidente chinês, Xi Jinping, sobre as negociações comerciais, com um desfecho favorável podendo dar suporte adicional às commodities ao longo da semana.


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